30 anos
1980-2010

Em 2010, nos 30 anos sobre o boom, foram publicadas 18 entrevistas, 3 destaques e 9 colaborações de escribas da música nacional. Fica aqui esse registo/memória.

COLABORAÇÕES . 30 anos
DESTAQUES . 30 anos

"Da primeira vez que estivemos em Portugal, abriu o nosso espectáculo o grupo... quê... Ananga sometinhg ... isso, Anangaranga [nota: assim mesmo escrito na revista], pareceram-me bons, gostei. Há, a propósito, uma coisa que queria dizer: perturba-me que todos os grupos, ou quase todos, sejam suecos ou portugueses, franceses ou japoneses, cantem em inglês. Por que é que não canta cada um na sua língua? Por que é que não se assumem, musicalmente, como nacionalidade. A minha opinião é que este é um caminho a tomar. Os êxitos aparecerão, desde que haja valor."

John Watts, dos Fischer-Z, ao Sete n.º 129, 26 de Novembro de 1980

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3. E acabou?

Ontem como hoje, a questão recorrente se os grupos portugueses devem ou não cantar em inglês. Ponto de vista curioso, o de Watts, uma vez que esta questão costuma ser nacional e não preocupar muito outrem. 

E, como sabemos, de 80 a 81, os grandes sucessos do ‘boom’ foram todos em português. É certo que alguns grupos que cantavam em inglês ainda se mostraram: Go Graal Blues Band, Street Kids ou Roxigénio. Mas, já em 1982, os Street Kids gravam o seu LP, “Trauma”, em português. E, mais tarde, primeiro o Garcez (dos Roxigénio), com o projecto Stick, e depois, Paulo Gonzo, a solo, gravarão em português. 

Também é certo, como nos dizem os Táxi (em entrevista AQUI), que cantar em inglês significava tentar o mercado internacional. É certo, tanto, The Gift, Blind Zero ou, principalmente, Moonspell, conseguiram, de facto, furar as fronteiras, cantando em inglês. Porém, o tempo tem mostrado que cantar em português pode conquistar o mundo; já havia sido assim com Amália Rodrigues, depois com Madredeus e Dulce Pontes, bem como mais recentemente com nomes como, Mariza, Ana Moura ou Buraca Som Sistema.
 
Noutro contexto, 1982 será o ano dos LPs, com mais de trinta edições (número ímpar no panorama nacional) no contexto da música moderna. Muitas bandas verão vedado o sonho do LP, como aconteceu ao Grupo de Baile (entrevista a Carlos Manuel Tavares, vocalista, AQUI) e aos Sui Generis – que ainda assim, lançam uma cassete. Também nos confidenciam Mário Pimenta e Carlos Perú, dos Pizo Lizo, haviam canções para tal formato (entrevista AQUI). 

Porém, outras bandas e/ou músicos lançam o seu primeiro álbum, depois da experiência em 45 rotações: CTT, Iodo, Manuela Moura Guedes, Street Kids, NZZN, Ferro & Fogo, GNR (já com Rui Reininho), Xutos & Pontapés, etc. Destes estreantes em 33 rotações, só os dois últimos singrarão, como se sabe. 

Nasce, ainda em 1982, um aclamado projecto de música experimental, Telectu, que, segundo um dos seus mentores, Vítor Rua (igualmente fundador dos GNR), nada tem a ver com o rock (entrevista AQUI). 

Em 1983, ainda há alguns resistentes e António Variações continua o seu percurso com ‘Anjo da Guarda’ (que acabará precocemente no ano seguinte, durante a promoção do seu 2.º LP, “Dar & Receber”). 

Novos projectos em áreas muito distintas gravam discos, como Sétima Legião, Ópera Nova ou Tó Neto (entrevista AQUI; o músico faleceu em 2013). 

A par dos citados GNR e Xutos & Pontapés construíram carreira para além do ‘boom’, nomes como o Rui Veloso, UHF, Lena d’Água (conhecida como 'a rocker portuguesa', mas para quem o jazz tem sido uma "escola desde os anos 70", como nos diz em entrevista, AQUI) e os Heróis do Mar (que fecham a actividade em em 1989). Mas também Fernando Girão (num registo a que hoje se apraz chamar de ‘world music’), Da Vinci, Mário Mata e Trabalhadores do Comércio foram gravando e tendo percursos próprios. Uns mais consistentes do que outros. 

E muitos continuaram ligados à música, como essa autêntica instituição de excelentes músicos que foram os "Salada de Frutas" (Nabo, Ponte, Inês, Quico e Carrapa), músicos que já tinham percurso antes do 'boom'. Também outro ‘salada’, Luís Pedro Fonseca – que já havia pertencido a uma banda mítica nacional, anos antes, os 'Chinchilas' e fará sucesso ainda ao lado de Lena d'Água –, continuou  muito activo., como nos confidenciou em entrevista (AQUI; nota: o músico faleceu em 2014) E igualmente Carlos Maria Trindade (entrevista AQUI), os polivalentes Pedro Ayres Magalhães e Vítor Rua, Luís Portugal e os irmãos Barreiros (Jafumega), etc., etc. 

O 'boom' acabou – ter-se-á mesmo esgotado em 1982. Mas, apenas em parte, porque as sementes ficaram e germinaram, possibilitando ainda que muitos projectos pudessem nascer, mais naturalmente, numa segunda geração de 80's: Rádio Macau, Sétima Legião (que ainda gravam ‘Glória’ no rescaldo do ‘boom’), Mler Ife Dada, Pop Dell’Arte, etc., fazendo com que a música moderna nacional passasse a existir de modo mais regular. 

Street Kids - "Propaganda"

Ópera Nova – "Sonhos"

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