30 anos
1980-2010

Em 2010, nos 30 anos sobre o boom, foram publicadas 18 entrevistas, 3 destaques e 9 colaborações de escribas da música nacional. Fica aqui esse registo/memória.

COLABORAÇÕES . 30 anos
DESTAQUES . 30 anos

LENA D'ÁGUA – Entrevista em Maio de 2010

Lena d'Água foi um dos mais populares rostos do boom e a primeira rocker portuguesa de notoriedade. Mas esse rótulo que se lhe colou não reflecte todo um percurso ecléctico desde a música infantil ao rock, passando também pelo jazz. 

António Luís Cardoso 

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Andei sempre fora do “tempo certo” da maioria

1. A passagem pelo teatro, os Beatnicks, a colaboração com os Petrus Castrus e a experiência musical no universo infantil foram uma mais-valia quando se deu aquela loucura de inícios de 80 no rock luso?

Tudo se deveu ao 25 de abril. Com o saneamento dos professores na faculdade que eu frequentava deixou de haver aulas e eu fiz-me à vida. Fiz parte de um grupo de teatro independente e levámos à cena o “Ou isto ou aquilo” – cujas canções gravei em 92 e que podem agora ser ouvidas no blogue "http://aguaparacriancas.blogspot.com" –, conheci o Ramiro Martins que veio a ser meu marido (de regresso a Portugal depois de dois anos na Bélgica por causa da guerra colonial), matriculei-me na Escola do Magistério Primário onde fiz o curso de professora do básico (as crianças chamavam-me a Lena da música...) e depois do nascimento da nossa filha entrei nos Beatnicks, onde o Ramiro era o viola baixo e eu segunda vocalista. A colaboração com os Petrus Castrus foi, creio, o primeiro registo gravado da minha carreira de cantora. Com os Beatnicks eu não cheguei a gravar.

2. Sabendo da sua apetência pelo jazz, como reage quando se referem a si como a ‘rocker portuguesa’?

Fui a primeira, acho normal.

3. Volvidos tantos anos sobre o ‘boom do rock português’, que memórias restam?

Muitas fotos, muitas viagens, muitos músicos com quem mantenho amizade e a cumplicidade de tantas aventuras “on the road”. E uma data de vinis ;)

4. O ‘boom’ precisa de pai? E será o Rui Veloso ou António Manuel Ribeiro?

Precisa mais de mãe, mas este país machista sempre ignorou essa peça fundamental... O pai do rock português é o José Cid, o António o filho mais velho e o Rui o filho mais novo... 

5. Um disco e uma banda/músico do ‘boom’?

O “sem açúcar”, da Salada de Frutas, 1980 – que nunca foi editado em CD

6. O percurso musical da Lena tem sido ecléctico. Foram os discos certos no tempo certo?

No meu tempo certo, sim. Mas andei sempre fora do “tempo certo” da maioria...

7. E hoje, qual a música moderna portuguesa que ouve?

A que a rádio permite que se ouça, e infelizmente também aí as coisas continuam mal. E via net lá vou seguindo algumas novidades. Há anos que deixei de comprar discos.

8. O jazz é o futuro musical da Lena?

O jazz tem sido minha escola desde os anos 70. A primeira década deste milénio foi para mim a prática dos conhecimentos que fui adquirindo ao longo dos anos – desde os festivais do Luís Villas Boas em Cascais. Tocar com músicos incríveis como o João Moreira ou o André Fernandes foi uma grande honra e uma tremenda satisfação. Brincar com o tempo sem perder o fio à meada, fazer de cada actuação uma actuação diferente, cantar cada frase com a respiração do grupo, cada palavra com o sentido mais profundo e sempre renovado pelos imprevistos do improviso, isso é para mim o jazz. E isso fica comigo para sempre.

Salada de Frutas – "Robot"

Lena d'Água & Atlântida – "Demagogia"

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